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Alves Correia

A festa do povão

Alves Correia

Das 05:00 às 09:00

16/07/2018



O pequeno Zeca entra em casa, após a aula, batendo forte os pés no assoalho da casa. Seu pai, que estava indo para o quintal fazer alguns serviços na horta, ao ver aquilo, chama o menino para uma conversa.

Zeca, de oito anos de idade, acompanha-o desconfiado. Antes que seu pai lhe dissesse alguma coisa, fala-lhe irritado:

Pai, estou com muita raiva. Juca humilhou-me na frente dos meus amigos. Não aceito. Gostaria que ficasse doente, sem poder ir à escola. Desejo-lhe tudo de ruim.

Seu pai, um homem simples, mas cheio de sabedoria, escuta calmamente o filho, que continua a reclamar. O pai ouve tudo calado, enquanto caminha até um abrigo, onde guardava um saco cheio de carvão. Leva o saco até o fundo do quintal e o menino acompanha-o, calado. Zeca vê o saco ser aberto e, antes mesmo que pudesse fazer uma pergunta, o pai propõe-lhe algo:

Filho, faça de conta que aquela camisa branquinha, que está secando no varal, é o seu amiguinho Juca e cada pedaço de carvão é um mau pensamento seu, dirigido a ele. Quero que jogue todo o carvão do saco na camisa, até o último pedaço. Depois volto para ver como ficou.

O menino achou que seria uma brincadeira divertida e pôs mãos à obra. O varal, com a camisa, estava longe dele e poucos pedaços acertam o alvo. Uma hora se passa e Zeca termina a tarefa.

O pai, que espiava tudo de longe, aproxima-se do menino e pergunta-lhe:

Filho, como se sente agora?

Estou cansado, mas alegre, porque acertei muitos pedaços de carvão na camisa.

O pai olha para o filho, que fica sem entender a razão daquela brincadeira e, carinhoso, diz-lhe:

Venha comigo até meu quarto, quero mostrar-lhe uma coisa.

Zeca acompanha o pai até o quarto e é colocado na frente de um grande espelho, onde pode ver seu corpo todo. Que susto! Só conseguia enxergar os dentes e os olhos.

O pai, então, fala-lhe ternamente:

Filho, você viu que a camisa está suja, mas olhe só para você. O mau que desejamos aos outros é como o que lhe aconteceu. Por mais que possamos atrapalhar a vida de alguém com nossos pensamentos, a borra, os resíduos, a fuligem ficam sempre em nós mesmos.

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